Tem uma pergunta que você provavelmente já ouviu por aí: a inteligência artificial vai acabar com o emprego das pessoas?
Foi com ela que Stephanie Jorge, sócia e fundadora do Torabit e autora do livro IAÍ? A geração sintética e a inteligência artificial, lançado pela Editora Senac, abriu sua fala na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, na mesa da Editora Senac “Inteligência artificial e o futuro do trabalho, habilidades para uma nova era”, que dividiu com a professora Martha Gabriel. E a resposta dela começou por um sinal de alerta. A pergunta não é exatamente essa. Quando alguém pergunta se a IA “vai acabar” com o emprego, está imaginando que ainda vem algo por aí. Só que a IA já chegou. Quem mandou currículo nos últimos dois anos provavelmente teve o texto lido primeiro por um programa. Quem ligou para o banco falou com um antes de falar com uma pessoa. O limite do cartão foi um programa que decidiu.
E emprego não é uma coisa só. Todo cargo é um monte de tarefas diferentes, e a IA não leva o cargo inteiro. Ela entra por pedaço. Pega uma tarefa, depois outra. Algumas ficam mais rápidas, algumas perdem valor e outras passam a valer mais do que valiam. Por isso a pergunta passa pela transformação já em curso e o que cada um pode fazer neste novo contexto.
O Fórum Econômico Mundial estima que, até 2030, uns 92 milhões de empregos devem desaparecer no mundo e uns 170 milhões devem surgir. Ou seja, no saldo, mais emprego, não menos. O detalhe é que as vagas novas não vão para as mesmas pessoas que perderam as antigas. Pedem outra habilidade, aparecem em outro setor, muitas vezes em outra cidade.
No Brasil, cerca de três em cada dez pessoas ocupadas estão em profissões expostas à IA, uns 30 milhões de brasileiros. E onde estão essas pessoas?
A máquina passa numa prova da OAB, mas não poda uma roseira nem conserta uma pia. O que ela alcança primeiro é o trabalho de tela, texto, planilha e padrão. Hoje o jardineiro está menos exposto do que o advogado.
Quem sente primeiro, são os jovens, porque a IA pega justamente as tarefas que eram o primeiro degrau da carreira, as mulheres, que são maioria nas funções administrativas e de atendimento, e quem está no meio da escolaridade, a pessoa que estudou o suficiente para chegar ao escritório mas não ao cargo que decide.
Dito isso, vamos para as cinco habilidades para essa nova era apresentadas lá na Bienal. Nenhuma é técnica, nenhuma exige aprender a programar, e todas dão para começar a praticar amanhã.
1. Saber pedir
A IA faz o que você descreve. Descreveu bem, ela tende a entrega bem. Descreveu mal, ela entrega qualquer coisa. É como encomendar um armário ao marceneiro. Se você diz só que quer um armário, sai um armário qualquer. Se explica para que serve, onde vai ficar e o que não pode ter, sai o armário certo.
E esse ponto fica mais importante a cada ano, não menos. As ferramentas estão cada vez mais autônomas. Antes você pedia uma sugestão de roteiro de viagem e ajustava na hora. Agora os agentes montam a viagem inteira sozinhos, conferem o próprio trabalho e refazem até fechar no orçamento. Se você esquecer de dizer que uma das pessoas é criança e que ninguém come frutos do mar, a máquina vai passar uma hora montando a viagem perfeita para a família errada. Quanto mais a ferramenta faz sozinha, mais peso tem o que você disse no começo.
A dica prática é essa. Ao pedir qualquer coisa a uma IA, diga para quem é, para que serve, qual o limite e o que não pode acontecer.
2. Desconfiar
Essa é bemmm importante. Essas ferramentas foram feitas para agradar. Elogiam sua ideia, concordam com você e, de vez em quando, inventam uma informação com a maior cara de verdade.
A habilidade da nova era é a mais antiga que existe, o senso crítico. Ler o que a máquina escreveu e perguntar se aquilo é verdade, de onde saiu e se faz sentido para o seu caso. Quem confere o que a máquina fez passa a valer mais do que quem só manda ela fazer.
3. Julgamento
A IA monta vinte slides, mas vinte slides não são uma boa apresentação. Ela dá cinquenta ideias, mas cinquenta ideias não são uma decisão. Quando uma empresa de IA perguntou a milhares de usuários o que a máquina nunca vai conseguir fazer no trabalho deles, a resposta mais comum entre os profissionais experientes foi essa. Julgamento. Ler o contexto e saber o que fazer quando a situação não está no manual.
Se a máquina erra um número no relatório que você assina, não é ela que vai à reunião explicar. É você. Cada decisão que você toma hoje, cada responsabilidade que assume, é treino para o que vai valer mais amanhã.
4. Relação
Construir confiança, negociar, acalmar um cliente bravo, sentir o clima de uma sala. A IA até prepara a negociação, mas não constrói uma relação. Sugere como dar uma notícia difícil, mas não é ela que estará na frente da pessoa na hora. E as pesquisas mostram que, nas ocupações em que a IA ajuda a pessoa em vez de substituir, o emprego ficou estável ou até cresceu. Trabalho de gente com gente segue sendo de gente.
5. Aprender de novo
O Fórum Econômico Mundial calcula que 39% das habilidades que usamos hoje vão mudar ou envelhecer até 2030. Acabou a ideia de aprender uma profissão aos vinte anos e repetir a mesma coisa por quarenta.
A boa notícia é que isso não significa que todo mundo precisa virar especialista. Pela conta da OCDE, menos de 1% dos trabalhadores vai precisar de habilidade avançada, como programar. Para a maioria, o que importa é saber usar, ler um dado, resolver um problema. E a própria IA pode ajudar a aprender.
A habilidade número zero
Repare que nenhuma das cinco é sobre a máquina. Clareza, senso crítico, julgamento, relação, aprendizado. São habilidades velhas, que agora precisam ser praticadas com muito mais força.
E se existe uma habilidade número zero, ela é começar.
Essa conversa está no centro do que a gente faz no Torabit, que é entender, com dados, como a opinião e o comportamento das pessoas se movem num mundo que muda rápido.
